O Museu das Coisas Começadas: a academia paga e usada uma vez e meia
Por Adiel Amanhã · · 4 min de leitura
Bem-vindo. Pode entrar. Não repare na bagunça, ela faz parte do acervo.
Você está no Museu das Coisas Começadas, a única instituição cultural do Brasil que funciona dentro de um apartamento de dois quartos. Entrada gratuita. O curador sou eu.
Antes da visita, um aviso: aqui nada está terminado. Nem a placa da entrada. Ela diz "Museu das Coisas Com".
Ala 1: a esteira-cabide
Começamos pela peça mais famosa do acervo. Comprada num momento de grande fé, em doze parcelas e um entusiasmo que durou mais ou menos a primeira.
Hoje, ela exerce com dignidade a função de cabide. Segura três camisas, uma calça jeans e uma toalha que está ali "só secando" desde o ano passado.
Repare no detalhe: o painel ainda tem o plástico de proteção. Um item de colecionador.
Ala 2: o violão encostado
Do lado da esteira, o violão. Ele sabe três acordes. Eu sei dois. Juntos, formamos uma banda que nunca ensaiou.
Ele fica encostado na parede num ângulo que eu chamo de "vou tocar mais tarde". Esse ângulo existe desde uma terça-feira de anos atrás.
Ala 3: a academia (a obra-prima)
Esta é a sala principal. Não tem objeto físico, só um boleto e uma lembrança.
A academia foi paga e usada uma vez e meia. A primeira vez foi completa: fiz esteira, fiz aparelho, fiz careta. A meia vez foi assim: cheguei, troquei de roupa, vi que estava cheio, me sentei no banco do vestiário e voltei para casa.
Eu conto como meia porque eu fui. Eu estive lá. O corpo esteve presente. Só não participou.
E todo mês, quando a mensalidade passava, eu sentia uma pontada. Não no músculo, que nunca chegou a ser exigido. Na consciência.
Ala 4: o curso de inglês
A última sala tem um caderno com quatro páginas preenchidas. O curso parou no "the book is on the table". O livro, aliás, ainda está na mesa. Pelo menos isso a gente aprendeu.
A grande descoberta do curador
Um dia, olhando a parede da sala, pintada de verde-água só até a altura do braço, eu tive uma revelação.
Metade pintada é mais do que zero.
A parede não está terminada, mas está mais bonita do que estava. A academia não virou rotina, mas a meia vez me ensinou onde ficava o vestiário. O violão não virou show, mas eu sei dois acordes que antes eu não sabia.
O problema nunca foi começar e parar. O problema foi achar que só vale se for inteiro, perfeito, para sempre, a partir de segunda.
Segundo o Instituto Depois de Amanhã de Pesquisas Horizontais, 87% dos objetos de um Museu das Coisas Começadas foram adquiridos numa segunda-feira, às 22h, depois de um vídeo motivacional. Os outros 13% foram presente de alguém que acreditava em nós.
3 dicas de verdade
Visita guiada encerrada. Agora, o que eu gostaria que alguém tivesse me dito antes da esteira.
1. Comece tão pequeno que fique quase ridículo. Em vez de "vou malhar uma hora por dia", tente "vou calçar o tênis e andar dez minutos". Pequeno o suficiente para caber num dia ruim. Quando a meta cabe nos piores dias, ela sobrevive aos médios, e os bons viram bônus.
2. Teste antes de comprar o pacote anual. Antes de pagar academia por um ano, curso inteiro ou o equipamento caro, faça uma semana com o que você já tem. Se existir aula avulsa, plano mensal ou uma versão gratuita, use primeiro. O entusiasmo é ótimo para começar, mas é um péssimo consultor de compras.
3. Tire a coisa do cantinho e coloque no caminho. O violão encostado no fundo do quarto não é tocado. O violão em cima da cama, sim, nem que seja para tirar ele de lá. Deixe o tênis na porta, o livro no travesseiro, o caderno aberto na mesa. O ambiente decide muito mais do que a força de vontade.
O museu continua aberto
Não estou pedindo para você fechar o seu museu. Ele conta a história de alguém que tentou, e tentar é bonito.
Só estou sugerindo outra exposição: em vez de coleção de coisas começadas, uma coleção de coisas feitas mais ou menos, todo dia. Dez minutos de caminhada. Uma página. Um acorde.
É disso que trata O Poder do Mais ou Menos, uma paródia de autoajuda sobre hábitos, para quem sempre começa na segunda. Escrito, inclusive, mais ou menos.
Volte sempre. A loja de souvenirs ainda não ficou pronta.
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