Como parar de procrastinar (começando depois de ler isto)
Por Adiel Amanhã · · 5 min de leitura
Se você quer saber como parar de procrastinar, a resposta curta é esta: deixe a tarefa tão pequena que dê vergonha de não fazer, tire as distrações do caminho e comece por cinco minutos, não pelo projeto inteiro. A procrastinação quase nunca é preguiça. Na maioria das vezes, é a tarefa parecendo grande, chata ou assustadora demais para hoje.
Pronto. Respondido. Você já pode fechar a aba e ir fazer a coisa.
Ainda está aqui? Eu também estaria. Então vamos conversar, porque eu escrevi este texto com três semanas de atraso.
Por que a gente procrastina, afinal?
Eu sempre achei que procrastinava por falta de força de vontade. Depois descobri que eu tinha força de vontade de sobra. Só que ela estava toda aplicada em reorganizar a pasta de downloads.
Repare: quem procrastina não fica parado. Quem procrastina lava a louça, responde mensagem de 2019, pesquisa a história do guarda-chuva. Tudo, menos a tarefa.
Isso acontece porque o cérebro foge do desconforto. A tarefa importante vem embrulhada em ansiedade, dúvida ou tédio. A louça, não. A louça é honesta. Ela só quer ser lavada.
Segundo o Instituto Depois de Amanhã de Pesquisas Horizontais, a tarefa adiada cresce 12 centímetros por dia dentro da cabeça da pessoa, mesmo continuando do mesmo tamanho na vida real. O estudo foi conduzido deitado e ainda não terminou.
O efeito "começo segunda"
Todo procrastinador tem uma data mágica. Segunda-feira. Dia primeiro. Depois do feriado. Ano que vem.
A data mágica é ótima porque transforma adiar em planejar. Você não está fugindo, está "se organizando para começar direito". E começar direito exige agenda nova, caneta colorida e um vídeo motivacional às onze da noite.
Eu tenho um acervo inteiro de coisas que comecei numa segunda dessas. Ele virou o Museu das Coisas Começadas, aberto à visitação.
O problema da segunda-feira é que ela sempre chega. E quando chega, ela é só uma terça disfarçada.
O perfeccionismo de pijama
Tem um tipo de procrastinação que parece qualidade. É quando você não começa porque quer fazer bem feito.
"Não vou escrever agora porque não estou inspirado." "Não vou arrumar o quarto hoje porque só daria para arrumar metade." "Não vou começar a caminhar porque não tenho o tênis certo."
É o famoso tudo ou nada. E, como todo mundo sabe, o nada costuma ganhar.
Eu passei anos achando que fazer pela metade não contava. Até perceber que metade é muito mais do que zero, e que hábitos pela metade, todo dia, rendem mais do que um sábado heroico por mês.
Como parar de procrastinar quando a tarefa parece enorme
A tarefa grande assusta porque você está olhando para ela inteira. "Fazer o trabalho" não é uma tarefa. É uma montanha com neblina.
Quebre em pedaços que caibam numa frase só e comecem com um verbo:
- abrir o arquivo;
- escrever o título;
- listar três ideias, mesmo ruins;
- mandar uma mensagem perguntando o prazo.
Cada pedacinho parece bobo. E é justamente por isso que funciona. Ninguém sente pavor de "abrir o arquivo". No máximo, um leve desconforto.
E se eu travar no meio?
Vai travar. Faz parte. Quando travar, não pense "falhei", pense "qual o próximo pedaço mais ridículo de pequeno?". Às vezes, a resposta é só "olhar de novo para a tela por um minuto". Já conta.
3 dicas de verdade
Chega de filosofia de sofá. Aqui vão três coisas práticas que funcionam até em dia ruim.
1. Combine só cinco minutos com você mesmo. Coloque um timer e diga: "vou fazer isso por cinco minutos e depois posso parar". O difícil é começar, não continuar. Muitas vezes, depois dos cinco minutos, você segue por mais um tempo. E se parar, tudo bem: cinco minutos feitos são cinco minutos a mais do que ontem.
2. Mude o ambiente antes de cobrar a força de vontade. Deixe o celular em outro cômodo ou no modo silencioso enquanto faz a tarefa. Feche as abas que não têm nada a ver. Deixe o material já aberto e à vista. Brigar com a distração cansa; tirar ela do caminho é bem mais fácil.
3. Decida o "quando" e o "onde", não só o "o quê". "Vou estudar" é um desejo. "Vou estudar 20 minutos depois do almoço, na mesa da cozinha" é um plano. Quanto mais concreto, menos espaço para o "depois eu vejo". Se der, pendure a tarefa em algo que você já faz todo dia, como passar o café.
E um lembrete gentil: se a vontade de adiar vier junto com cansaço que não passa, tristeza constante ou muita dificuldade de concentração por semanas, vale conversar com um profissional de saúde. Às vezes não é procrastinação. É o corpo pedindo ajuda.
E quando eu procrastinar de novo?
Você vai. Eu também. Provavelmente amanhã.
A diferença não está em nunca mais adiar. Está em voltar rápido. Em vez de "estraguei a semana, recomeço segunda", tente "daqui a pouco faço cinco minutos". A recaída só vira desistência quando você espera a data mágica para tentar de novo.
Perdoe-se rápido. Comece pequeno. Repita mais ou menos.
Começando depois de ler isto
Eu não virei uma pessoa produtiva. Continuo arrumando a gaveta de talheres quando deveria estar fazendo outra coisa. Mas agora eu arrumo a gaveta e depois faço cinco minutos da tarefa. É um avanço.
Essa ideia de que o mais ou menos, feito todo dia, vale mais do que o perfeito que nunca começa é o coração de O Poder do Mais ou Menos, uma paródia de autoajuda para quem sempre começa na segunda e quer rir disso, em vez de se culpar.
Agora vai lá. Cinco minutos. Eu espero. Mais ou menos.
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