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Acordar às 5h? O sol nem acordou ainda

Por Adiel Amanhã · · 4 min de leitura

Existe uma categoria inteira de gente que acorda às 5h da manhã. Você já viu. Eles postam uma xícara de café fumegante, um caderno aberto e uma janela com o céu ainda roxo. A legenda é sempre alguma coisa como "enquanto você dorme, eu construo".

Enquanto eles constroem, eu estou dormindo. E, sinceramente, fazendo um ótimo trabalho nisso.

Mas a culpa bate. Então um dia eu tentei.

O dia em que eu acordei às 5h

Coloquei o alarme para 5h. Depois, por precaução, coloquei outro para 5h05. E mais um para 5h10. Quando fui ver, eram sete alarmes, cada um com um nome motivacional. O das 5h20 se chamava "AGORA VAI". Não foi.

O das 5h40 eu desliguei com uma precisão que nenhum treinamento militar ensina. Dedo certeiro, olho fechado, zero lembrança no dia seguinte.

Às 6h12 eu levantei. Fui até a janela. E percebi uma coisa que ninguém conta nas fotos: o sol ainda não tinha acordado. Estava tudo escuro. Um silêncio desconfortável. Um cachorro olhando para mim como quem pergunta "tá tudo bem em casa?".

Se nem o sol topa acordar a essa hora, quem sou eu para querer ser mais produtivo que uma estrela?

O que a ciência (duvidosa) diz

Segundo o Instituto Depois de Amanhã de Pesquisas Horizontais, que funciona no meu quarto e tem como equipe eu e um travesseiro, 94% das pessoas que acordam às 5h passam o resto do dia contando para os outros que acordaram às 5h. Os outros 6% estavam mentindo.

Outro levantamento do mesmo instituto, feito com uma amostra de três pessoas da minha família, concluiu que o horário em que você acorda importa muito menos do que o horário em que você foi dormir. A metodologia foi perguntar no almoço de domingo. A margem de erro é a mesa inteira.

Tem também o caso do meu primo, que passou a acordar às 5h e de fato ficou mais produtivo. Até as 14h. Às 14h01 ele dormiu sentado no ônibus e acordou no ponto final, do outro lado da cidade. Foi o dia mais produtivo da vida do cobrador.

O problema não é a hora, é a régua

A verdade, por trás da piada, é meio óbvia: acordar cedo não é uma virtude moral. É só um horário.

Tem gente que funciona bem de manhã. Tem gente que só liga o cérebro depois do almoço. Tem gente que trabalha de madrugada, cuida de criança pequena, pega dois ônibus, faz turno. Para muita gente, "acordar às 5h" não é um estilo de vida, é só a terça-feira. E ninguém posta foto disso.

O que cansa não é acordar tarde. É viver se comparando com uma rotina que não cabe na sua vida, no seu corpo nem no seu horário de trabalho. A régua errada faz qualquer pessoa parecer atrasada.

Então, em vez de mudar o despertador para uma hora que nem o sol respeita, talvez valha mudar a pergunta. Não é "como eu acordo mais cedo?". É "como eu acordo menos destruído?".

3 dicas de verdade

Sem coach, sem nascer do sol, sem caderno de capa dura. Só coisas simples que costumam ajudar:

  1. Durma e acorde mais ou menos no mesmo horário. Inclusive no fim de semana, dentro do possível. O corpo gosta de previsibilidade. Não precisa ser às 5h, precisa ser parecido todo dia.
  2. Dê ao seu cérebro um "fim de expediente". Uns 30 minutos antes de deitar, diminua a luz, largue o celular e faça algo chato e gostoso: um banho, um livro leve, arrumar a roupa do dia seguinte. Café e energético perto da hora de dormir também costumam atrapalhar.
  3. Comece mudando 15 minutos, não duas horas. Se você quer acordar mais cedo, ande o despertador 15 minutos por semana. E, se o cansaço é constante mesmo dormindo bem, não é falta de força de vontade: vale conversar com um profissional de saúde.

E um bônus: um alarme só, longe da cama. Sete alarmes não são disciplina. São uma negociação diária que você sempre perde.

Para fechar (sem pressa)

Se você leu até aqui deitado, parabéns. Você está exatamente onde deveria estar.

O dia não fica melhor porque começou mais cedo. Fica melhor quando você dorme o suficiente, acorda sem culpa e faz um pouquinho do que importa. De preferência depois que o sol já tiver aparecido para trabalhar também. Ele é o profissional aqui.

Foi pensando em gente assim, com sete alarmes e muita culpa, que o Adiel Amanhã escreveu O Milagre do Depois de Amanhã, uma paródia de autoajuda para quem quer mudar de vida sem sair da cama antes das dez. Pode ler às 11h. Ninguém vai saber.

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